El Niño 2026 coloca clima no centro das decisões do varejo

O possível retorno do El Niño em 2026 deve trazer novos desafios para o varejo brasileiro. Com previsão de temperaturas acima da média em parte do país, alterações nos regimes de chuva e maior ocorrência de eventos climáticos extremos, o fenômeno pode influenciar desde o comportamento do consumidor até a disponibilidade de produtos e os custos operacionais das empresas.

A avaliação é da Kikker, empresa especializada em abastecimento, planejamento de demanda e inteligência para o varejo. A companhia alerta que, em um cenário de volatilidade climática crescente, estratégias baseadas exclusivamente em históricos de vendas tendem a perder eficiência, exigindo maior capacidade de adaptação das operações.

"O fenômeno El Niño 2026 deve ser compreendido como um risco sistêmico de negócio, com impacto direto no EBITDA e na resiliência da cadeia de suprimentos", afirma Daniela Araújo, Head de Vendas da Kikker.


Foto: Daniela Araújo, Head de Vendas da Kikker.

Projeções citadas pela empresa, com base no Boletim nº 1 do Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet), apontam maior probabilidade de chuvas acima da média em áreas do Sul do país, precipitações abaixo dos padrões históricos em parte do Centro-Norte, temperaturas elevadas e aumento do risco de ondas de calor e incêndios florestais.

Consumo muda mais rápido

Os impactos do clima sobre o varejo vão muito além das sazonalidades tradicionalmente consideradas no planejamento comercial. Mudanças bruscas de temperatura e períodos prolongados de chuva podem alterar rapidamente o comportamento de compra dos consumidores e influenciar diretamente o desempenho de diferentes categorias.

Dias de calor intenso, por exemplo, costumam elevar a demanda por água, gelo, bebidas e sorvetes. Já períodos chuvosos tendem a reduzir o fluxo de consumidores em lojas físicas, ao mesmo tempo em que fortalecem canais digitais, serviços de entrega, refeições prontas e produtos congelados.

Nesse cenário, o desafio deixa de ser apenas prever quanto será vendido e passa a incluir a capacidade de entender onde, quando e de que forma o consumo irá acontecer.

"O clima deixa de ser apenas uma variável operacional e passa a atuar como um fator estratégico de geração — ou perda — de receita", destaca Daniela.

Temperatura, precipitação, umidade e ondas de calor passaram a influenciar diretamente categorias inteiras de produtos, exigindo respostas mais rápidas das áreas de abastecimento e planejamento.

Inteligência artificial ganha protagonismo

A utilização de dados climáticos no varejo evoluiu significativamente nos últimos anos. O setor passou de decisões baseadas principalmente na experiência de compradores e gestores para modelos apoiados por análise de dados e ferramentas preditivas.

Com o avanço da inteligência artificial e do machine learning, empresas conseguem cruzar informações meteorológicas, históricos de vendas, movimentação logística e padrões de consumo para antecipar cenários e ajustar operações com mais precisão.

Segundo a análise da Kikker, sistemas avançados já permitem recalcular necessidades de abastecimento diariamente, identificando possíveis impactos de ondas de calor, períodos de frio ou mudanças bruscas nas condições climáticas. Isso possibilita ajustes mais rápidos em compras, estoques e distribuição, reduzindo riscos de ruptura e excesso de mercadorias.

Efeitos chegam à cadeia de suprimentos

Os reflexos do El Niño não devem se limitar ao comportamento do consumidor. Alterações no regime de chuvas podem afetar a produção agrícola, pressionar custos, provocar oscilações de preços e gerar instabilidade em diferentes etapas da cadeia de abastecimento.

Além disso, eventos climáticos extremos podem impactar operações logísticas, dificultando transporte, armazenamento e distribuição de produtos. Em um ambiente cada vez mais conectado, atrasos ou falhas em um elo da cadeia tendem a repercutir em toda a operação.

A mudança na jornada de compra também exige atenção. Com consumidores alternando entre lojas físicas, aplicativos e plataformas de delivery de acordo com as condições climáticas, torna-se necessário planejar não apenas o estoque total, mas também sua distribuição entre os diferentes canais de venda.

Entre as medidas consideradas mais importantes para enfrentar períodos de instabilidade climática estão a incorporação de previsões meteorológicas aos modelos de demanda, a revisão das políticas de estoque e cobertura e a antecipação de negociações com fornecedores estratégicos.

A realização de simulações para diferentes cenários de consumo também ganha relevância, permitindo respostas mais rápidas diante de mudanças inesperadas.

Outro ponto destacado é a necessidade de fortalecer a integração entre varejistas e fornecedores, ampliando o compartilhamento de informações, a visibilidade dos pedidos e o acompanhamento contínuo do desempenho dos produtos.

Além do planejamento, investimentos em infraestrutura operacional — como sistemas de refrigeração, expositores e centros de distribuição preparados para temperaturas mais elevadas — podem se tornar cada vez mais necessários.

Resiliência como diferencial competitivo

Para a Kikker, a possibilidade de um novo ciclo do El Niño reforça a importância de modelos de gestão mais flexíveis e preparados para lidar com cenários de incerteza.

A combinação entre inteligência artificial, previsões climáticas e maior integração entre as áreas de negócio tende a ganhar espaço como ferramenta estratégica para reduzir riscos, aumentar a eficiência operacional e preservar resultados.

"Em 2026, a pergunta para a alta diretoria não é mais se a tecnologia pode ajudar, mas quão rápido a empresa será capaz de integrar essa inteligência fluida para transformar a imprevisibilidade do clima na sua maior vantagem competitiva", conclui Daniela.

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