De Maceió para o mundo: startup nordestina leva inovação brasileira para a cirurgia de catarata
A startup nordestina Logos Bioscience, sediada em Maceió (AL), alcançou um marco na oftalmologia com a lente intraocular Galaxy. Desenvolvida pelo oftalmologista, pesquisador e professor universitário João Marcelo Lyra, a tecnologia atingiu aproximadamente 100 mil implantes em diferentes países e se tornou a primeira lente intraocular do mundo com design óptico em espiral.Criada em colaboração com especialistas brasileiros em computação, física óptica e oftalmologia, a Galaxy surgiu para responder a uma demanda recorrente de pacientes submetidos à cirurgia de catarata. Embora as lentes multifocais tradicionais reduzam a dependência dos óculos, elas podem provocar halos ao redor das luzes, perda de contraste e desconforto visual, principalmente em atividades noturnas.
"A grande pergunta era se seria possível oferecer independência visual sem sacrificar a qualidade da visão. Foi essa inquietação que motivou anos de pesquisa até chegarmos a uma solução inédita", afirma João Marcelo Lyra.
Segundo o pesquisador, a mudança no comportamento dos pacientes também influenciou o desenvolvimento da tecnologia. A popularização dos smartphones ampliou a necessidade de uma boa visão intermediária e, após a pandemia, cresceu a busca por mais conforto visual e segurança nas atividades do dia a dia.
Inteligência artificial no desenvolvimento da lente
Para atender a essas necessidades, a equipe deixou de lado o desenho óptico convencional e desenvolveu uma arquitetura em espiral otimizada por inteligência artificial. Diferentemente das lentes difrativas tradicionais, a Galaxy utiliza um sistema refrativo que distribui a luz de forma mais suave, reduzindo significativamente fenômenos ópticos indesejados.
O resultado é uma lente capaz de proporcionar visão para perto, média e longa distância, com elevado contraste e menor incidência de halos, ampliando a independência do uso de óculos sem comprometer a experiência visual.
O desenvolvimento foi conduzido pelo grupo Brazilian Artificial Intelligent Networking Medicine (BRAIN), iniciativa dedicada desde 2010 à aplicação de inteligência artificial na oftalmologia, reunindo pesquisadores formados por universidades brasileiras.
A experiência do grupo em softwares médicos permitiu desenvolver algoritmos capazes de simular milhares de possibilidades ópticas até encontrar um padrão que equilibrasse qualidade visual e multifocalidade. O processo levou cerca de dois anos e envolveu médicos, engenheiros e físicos.

Imagem: Divulgação
Da pesquisa ao mercado internacional
Após o desenvolvimento da tecnologia, a patente da Galaxy foi transferida da Logos Bioscience para a britânica Rayner, multinacional especializada em soluções para cirurgia de catarata, responsável pela expansão comercial da lente em escala global.
Atualmente, a Galaxy possui aprovações regulatórias na Europa, Canadá, Índia, Austrália e Nova Zelândia. No Brasil, a tecnologia está disponível desde 2025 e também passa pela fase final de avaliação da Food and Drug Administration (FDA), agência reguladora dos Estados Unidos.
A marca de aproximadamente 100 mil implantes representa um novo estágio para a tecnologia. Desse total, cerca de 10 mil procedimentos foram realizados no Brasil, enquanto os demais estão distribuídos principalmente entre países europeus e outros mercados internacionais.
Segundo João Marcelo Lyra, os resultados observados confirmam que a tecnologia atende ao espaço existente entre as lentes multifocais tradicionais e outras opções disponíveis para a cirurgia de catarata.
A evolução da Galaxy ocorre paralelamente à inauguração do Logos Day Hospital, estrutura criada para integrar pesquisa científica, assistência médica e treinamento de especialistas.
O complexo foi planejado para receber médicos brasileiros e estrangeiros interessados em conhecer tecnologias desenvolvidas pela Logos Bioscience, reunindo atividades de pesquisa e formação profissional em Maceió.
Além da lente intraocular, a empresa mantém outras linhas de pesquisa. Entre elas está o desenvolvimento de plataformas de inteligência artificial para analisar imagens do fundo do olho e identificar sinais precoces de doenças sistêmicas, como diabetes, hipertensão arterial e Alzheimer.
Outra iniciativa busca integrar dados clínicos de milhares de pacientes com análises fotônicas realizadas em laboratório para aperfeiçoar continuamente o design óptico das futuras gerações de lentes intraoculares.
Para João Marcelo Lyra, o principal legado do projeto está na possibilidade de transformar pesquisa em aplicações voltadas aos pacientes.
"A mensagem é que pesquisa de ponta pode nascer no Brasil, gerar propriedade intelectual competitiva, atrair parceiros globais e impactar milhares de vidas. Nosso objetivo sempre foi transformar ciência em benefício concreto para os pacientes".
Com cerca de 100 mil implantes realizados, aprovações regulatórias em diferentes mercados e novos projetos em desenvolvimento, a Galaxy amplia a presença da tecnologia desenvolvida no Brasil na oftalmologia e marca mais um avanço da inovação produzida no Nordeste. Leia a revista