IA acelera recuperação de recursos da saúde pública em Pernambuco

A Secretaria de Saúde de Pernambuco (SES-PE) vem utilizando inteligência artificial para tornar mais ágil o processo de ressarcimento administrativo de despesas da saúde pública que, por determinação judicial, foram assumidas pelo Estado, mas são de responsabilidade da União. A iniciativa é resultado de uma parceria com a Di2win, deep tech sediada no Porto Digital, e combina recursos de IA e hiperautomação para acelerar a recuperação desses valores.

A solução utilizada é a Agente Inteligente de Ressarcimento Administrativo (AIRA), que incorpora tecnologia de Processamento Inteligente de Documentos (IDP). O sistema automatiza a leitura e a interpretação de informações necessárias para o preenchimento dos documentos exigidos na formalização dos pedidos de ressarcimento junto ao Ministério da Saúde.

Na prática, o ressarcimento administrativo ocorre quando o Estado de Pernambuco é obrigado, por decisão judicial, a custear medicamentos, tratamentos ou procedimentos — muitas vezes de alto custo — que deveriam ser financiados pela União no âmbito do Sistema Único de Saúde (SUS). Após arcar com essas despesas, o Estado precisa seguir um rito administrativo para solicitar a devolução dos recursos, processo que exige organização documental, preenchimento de formulários e análise por parte do governo federal.


Equipe SES-PE
Imagem: Divulgação


Judicialização e recuperação de recursos

O ressarcimento administrativo é uma prática comum em todo o país, especialmente em casos de judicialização da saúde. De acordo com entendimentos consolidados pelo Supremo Tribunal Federal (STF), quando um ente federativo assume custos que seriam de responsabilidade de outro, há direito à compensação financeira.

Entre os principais casos estão o fornecimento de medicamentos não incorporados ao SUS, tratamentos oncológicos, procedimentos de média e alta complexidade e situações que envolvem Protocolos Clínicos e Diretrizes Terapêuticas (PCDT). O processo, no entanto, não é automático e depende da correta instrução administrativa, fator que torna a eficiência operacional buscada pela SES-PE um diferencial estratégico, já que o Ministério da Saúde prioriza solicitações submetidas primeiro.


Tecnologia para acelerar processos

A AIRA atua diretamente sobre os processos que tramitam via Sistema Eletrônico de Informações (SEI), a partir de documentos oriundos de decisões judiciais conduzidas pela Procuradoria Geral do Estado (PGE) e pelo Tribunal de Justiça de Pernambuco (TJPE).

A ferramenta utiliza tecnologia de Reconhecimento Inteligente de Caracteres (ICR), capaz de interpretar arquivos digitalizados e até documentos manuscritos, convertendo essas informações em dados estruturados. Em seguida, os dados são organizados e inseridos automaticamente nos formulários exigidos pelo Ministério da Saúde por meio de modelos de linguagem de grande escala (LLMs), tecnologia de inteligência artificial capaz de processar e interpretar grandes volumes de informação.

A combinação dessas tecnologias reduz significativamente o tempo operacional e minimiza possíveis erros humanos. Segundo a Di2win, a solução apresenta acurácia de 98% na extração de dados, índice superior ao registrado por tecnologias anteriormente testadas, que alcançavam entre 70% e 80%.

Resultados e ganho de produtividade

De acordo com o diretor de Inteligência Artificial da SES-PE, Álvaro Pinheiro, o volume de processos e a complexidade documental representavam gargalos relevantes antes da implementação da tecnologia.

Segundo o gestor, Pernambuco tinha cerca de R$ 1 bilhão a receber em ressarcimentos quando a AIRA entrou em operação. Atualmente, há aproximadamente R$ 780 milhões em projeção de recuperação financeira em processos já submetidos, além de outros em andamento.

Os ganhos de produtividade também foram expressivos. O número de processos enviados mensalmente ao Ministério da Saúde passou de 276 para 4.506 após a adoção da tecnologia.

Para Yves Nogueira, CSO da Di2win, a iniciativa reforça o potencial da inteligência artificial como aliada da gestão pública, promovendo maior eficiência, transparência e capacidade de resposta em áreas críticas como a saúde.

"A tecnologia da deep tech pernambucana pode ser aplicada não apenas na solicitação de ressarcimento por outras secretarias de saúde, mas se adaptar a qualquer contexto que haja necessidade de identificação e extração de dados de documentos digitalizados", afirma.

Sediada no Porto Digital, a Di2win atua no desenvolvimento de soluções de Processamento Inteligente de Documentos (IDP), gêmeos digitais organizacionais, hiperautomação de processos e ciência de dados.

Novas aplicações para a inteligência artificial

Diante dos resultados obtidos, a Secretaria de Saúde de Pernambuco já avalia ampliar o uso da tecnologia para outras frentes. Uma das possibilidades é a aplicação da solução na leitura e extração de dados de prontuários clínicos, com o objetivo de alimentar a Rede Estadual de Dados em Saúde (REDS), plataforma que integra informações de hospitais, unidades de média complexidade e atenção primária em todo o estado.

A iniciativa demonstra como tecnologias de inteligência artificial vêm sendo incorporadas à gestão pública para automatizar processos, ampliar a eficiência operacional e acelerar a recuperação de recursos que podem ser reinvestidos no sistema de saúde. Leia a revista
Redação, 17.AGOSTO.2026 | Postado em Governo

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