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Agentes de IA: quando a inteligência artificial começa a trabalhar

Durante os últimos anos, poucas tecnologias despertaram tanto interesse quanto a inteligência artificial generativa. Empresas de todos os portes passaram a utilizar ferramentas capazes de produzir textos, resumir documentos, desenvolver códigos, automatizar atendimentos e acelerar atividades que antes dependiam exclusivamente do trabalho humano. O movimento consolidou a IA como um dos principais motores da transformação digital e abriu caminho para uma nova etapa de amadurecimento da tecnologia.    

Os primeiros sinais dessa evolução já aparecem na rotina das empresas. Segundo o Microsoft 2026 Work Trend Index, 49% das interações realizadas no Microsoft 365 Copilot já envolvem trabalho cognitivo, como análise, tomada de decisão e resolução de problemas. O dado mostra que a inteligência artificial começa a assumir atividades mais complexas, deixando de ser utilizada apenas como uma ferramenta de apoio para tarefas pontuais.

Em 2026, a discussão já não está centrada apenas na utilização de chatbots ou assistentes inteligentes. O foco passa a ser os agentes de IA: sistemas capazes de compreender objetivos, executar tarefas, acessar diferentes aplicações, interagir com bases de dados e coordenar fluxos de trabalho de forma autônoma, sempre dentro de regras definidas pelas organizações.

Embora a adoção ainda esteja em fase inicial, o interesse do mercado cresce rapidamente. Dados da Gartner mostram que 17% das organizações já implantaram agentes de IA, enquanto mais de 60% pretendem adotá-los nos próximos dois anos. O cenário indica que muitas empresas começam a sair da etapa de experimentação para estruturar projetos capazes de integrar a inteligência artificial às operações do dia a dia.

Essa transição representa um novo momento para a IA generativa. Se nos últimos anos o desafio era descobrir como utilizar a tecnologia, agora a questão passa a ser outra: como transformá-la em produtividade, eficiência operacional e vantagem competitiva.

O movimento já influencia o planejamento das organizações. Enquanto a Gartner aponta a IA agêntica como uma das principais tendências da transformação digital, o 2026 Work Trend Index, da Microsoft, destaca que empresas começam a adotar um modelo em que pessoas e agentes de IA atuam de forma integrada, redistribuindo atividades e ampliando a capacidade das equipes. O estudo também ressalta que essa evolução depende de mais do que tecnologia: exige processos bem definidos, desenvolvimento de novas competências e modelos de governança capazes de garantir segurança e eficiência na operação.

Para o setor de tecnologia, esse cenário cria novas oportunidades de negócio. Integradores, desenvolvedores, fabricantes, agências, consultorias e provedores de internet deixam de atuar apenas na implantação de soluções de IA e passam a assumir um papel estratégico na integração entre sistemas, na organização de dados, na definição de políticas de governança e na sustentação dessas novas operações.

No ecossistema de tecnologia do Nordeste, essa transformação abre espaço para ampliar a oferta de serviços e apoiar empresas em uma etapa mais madura da transformação digital. Mais do que vender ferramentas, o desafio passa a ser desenvolver soluções capazes de resolver problemas reais, automatizar processos e gerar resultados mensuráveis para os negócios.


Imagem: Divulgação

Do conceito à prática: um exemplo que surge no Nordeste

Embora a adoção de agentes de IA ainda esteja em fase inicial em muitas organizações, empresas brasileiras já começam a transformar o conceito em aplicações concretas. No Nordeste, diferentes iniciativas mostram como a tecnologia avança para além dos assistentes virtuais e passa a participar diretamente das operações de negócio.

Um exemplo é a Volund, lançada em 2026 com a proposta de aplicar agentes de inteligência artificial em todo o ciclo de desenvolvimento de software, do levantamento de requisitos à documentação dos projetos. Segundo a empresa, o modelo combina agentes especializados com equipes humanas responsáveis pela supervisão, arquitetura e relacionamento com clientes.

Outro caso é o da Done!.ai, empresa baiana que reposicionou sua atuação para incorporar análise de dados, automação de processos e agentes de IA voltados às pequenas e médias empresas. A estratégia busca utilizar a inteligência artificial para integrar informações, automatizar fluxos de trabalho e apoiar decisões operacionais, ampliando a produtividade e reduzindo atividades repetitivas.

Para Adriele Strada, sócia da Done!.ai, a evolução dos agentes de IA marca uma mudança na forma como as empresas utilizam a tecnologia. “Os agentes de IA representam uma mudança importante porque deixam de ser apenas ferramentas de consulta e passam a atuar dentro dos fluxos de trabalho das empresas. Nosso objetivo é tornar essa tecnologia acessível para pequenas e médias organizações, ajudando a transformar dados em ações e ganhos reais de produtividade”, afirma.


Adriele Strada, sócia da Done!.ai
Imagem: Divulgação


Embora atuem em frentes diferentes, os dois exemplos ilustram uma mesma tendência: a transição da IA como ferramenta de apoio para a IA como participante ativa dos processos de negócio. Ainda representam uma parcela pequena do mercado, mas ajudam a mostrar como a chamada IA agêntica começa a sair do campo das previsões para encontrar aplicações práticas em empresas brasileiras.

Dos copilotos aos agentes: o que realmente mudou?

Grande parte da popularização da inteligência artificial nos últimos anos aconteceu por meio dos chamados copilotos digitais. Integrados a plataformas de produtividade, atendimento e desenvolvimento de software, esses sistemas passaram a auxiliar profissionais na redação de textos, criação de apresentações, análise de dados e geração de códigos. Apesar dos avanços, sua atuação ainda depende, em grande parte, da interação humana.

Os agentes de IA representam um passo além desse modelo. Em vez de apenas responder a solicitações ou sugerir ações, eles são capazes de executar tarefas de forma autônoma, tomando decisões dentro de parâmetros previamente estabelecidos e interagindo com diferentes sistemas para atingir um objetivo.

Na prática, a diferença está no papel desempenhado pela tecnologia. Enquanto um copiloto funciona como um assistente que apoia o usuário durante uma atividade, um agente pode assumir parte da execução desse trabalho. Isso significa consultar bancos de dados, atualizar informações em sistemas corporativos, abrir chamados, encaminhar demandas, elaborar relatórios e até coordenar diferentes etapas de um processo sem a necessidade de comandos contínuos.

Essa capacidade é possível porque os agentes combinam modelos de linguagem com ferramentas de automação e integração. Em vez de operar isoladamente, eles conseguem acessar aplicações como CRMs, ERPs, plataformas de atendimento, sistemas de gestão e bases de conhecimento, utilizando essas informações para executar ações de forma contextualizada.

Em um ambiente corporativo, por exemplo, um agente pode receber a solicitação de um cliente, identificar o histórico de atendimento, consultar a disponibilidade de um produto, registrar uma ocorrência no sistema, encaminhar a demanda ao setor responsável e acompanhar o andamento do processo até sua conclusão. Tudo isso mantendo o usuário informado sobre cada etapa.

O avanço também permite que diferentes agentes atuem em conjunto. Um deles pode ser responsável por interpretar a solicitação inicial, outro por consultar informações internas e um terceiro por executar determinada ação ou validar o resultado antes da entrega final. Essa orquestração amplia o potencial de automação e reduz a necessidade de intervenção humana em tarefas repetitivas.

Esse avanço também é observado por empresas e consultorias que acompanham a evolução da IA corporativa. O 2026 Work Trend Index, da Microsoft, aponta que profissionais passam a atuar cada vez mais ao lado de agentes digitais, enquanto a Gartner avalia que essa será uma das principais frentes de transformação dos ambientes de trabalho nos próximos anos. 

No entanto, especialistas alertam que autonomia não significa independência total. Os agentes precisam operar dentro de limites bem definidos, respeitando regras de negócio, níveis de acesso e mecanismos de supervisão. Em processos críticos — como operações financeiras, decisões jurídicas ou tratamento de dados sensíveis — a validação humana continua sendo indispensável para reduzir riscos e garantir conformidade.

Essa mudança de paradigma explica por que os agentes de IA são apontados como uma das principais evoluções da inteligência artificial em 2026. Mais do que uma nova funcionalidade, eles representam uma forma diferente de integrar a tecnologia ao dia a dia das empresas, transformando a IA em parte ativa da operação.


Imagem: Divulgação

O desafio de colocar os agentes em operação

Se a tecnologia evoluiu rapidamente, a adoção pelas empresas ainda acontece em um ritmo mais cauteloso. O principal obstáculo já não é a disponibilidade de ferramentas, mas a capacidade das organizações de integrá-las aos seus processos de forma segura e eficiente.

A própria Gartner alerta que o mercado ainda vive um momento de forte expectativa em torno da IA agêntica. Em seu Hype Cycle for Agentic AI 2026, a consultoria posiciona a tecnologia no chamado "Peak of Inflated Expectations" ("Pico das Expectativas Infladas"), indicando que o entusiasmo em torno dos agentes ainda supera o número de projetos efetivamente consolidados nas empresas. Esse cenário reforça a importância de uma adoção gradual, baseada em objetivos claros e processos bem estruturados. 

Diferentemente dos chatbots tradicionais, os agentes de IA precisam acessar informações em diferentes sistemas, interpretar dados, executar ações e, em muitos casos, interagir com plataformas como CRMs, ERPs, softwares de atendimento e bases internas de conhecimento. Quando essas informações estão desorganizadas ou os processos não são bem definidos, a automação perde eficiência e aumenta o risco de erros.

Especialistas concordam que a adoção de agentes exige uma transformação na forma como o trabalho é organizado. Mais do que incorporar uma nova tecnologia, as empresas precisam redesenhar fluxos, definir responsabilidades e preparar as equipes para atuar ao lado desses sistemas, estabelecendo um equilíbrio entre autonomia da IA e supervisão humana.

Outro ponto crítico é a governança. À medida que agentes passam a executar tarefas em nome da empresa, cresce a preocupação com controle de acessos, proteção de dados, auditoria e conformidade com normas regulatórias. Em processos sensíveis, como operações financeiras, gestão de contratos ou tratamento de informações confidenciais, especialistas recomendam que a decisão final continue sob responsabilidade de um profissional.

Além da tecnologia, a mudança também é cultural. A implementação de agentes de IA exige que as empresas revisem processos internos, definam indicadores de desempenho e estabeleçam critérios claros para medir os resultados. Sem esse planejamento, a tendência é que projetos de automação se limitem a testes pontuais, sem gerar ganhos efetivos para o negócio.

É justamente por isso que especialistas defendem começar por processos específicos, com objetivos bem definidos e resultados mensuráveis. A partir dessas primeiras experiências, as organizações conseguem ampliar gradualmente o uso dos agentes, reduzindo riscos e criando uma base mais sólida para novas aplicações.


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