Quem vai morar no centro da inovação?

O Centro do Recife enfrenta um desafio que vai além da preservação do patrimônio histórico. Após perder cerca de 42 mil moradores entre 2010 e 2022, segundo dados do Censo Demográfico do IBGE, a região busca um novo ciclo de ocupação capaz de fortalecer não apenas a moradia, mas também o ambiente de inovação e desenvolvimento econômico que vem se consolidando nos últimos anos.

A população dos bairros centrais caiu de aproximadamente 78 mil habitantes para 36 mil no período. Em resposta, iniciativas públicas e privadas têm apostado na recuperação de imóveis subutilizados e na ampliação da oferta habitacional. De acordo com a Prefeitura do Recife, por meio do programa Recentro, os projetos em desenvolvimento podem viabilizar até 50 mil novas unidades habitacionais nos próximos anos.

A discussão ocorre em paralelo à expansão do Porto Digital, um dos principais polos de tecnologia e economia criativa do país. O crescimento das empresas instaladas na região histórica do Recife ampliou a circulação de profissionais, investimentos e iniciativas ligadas à inovação, reforçando a necessidade de tornar o centro também um espaço mais atrativo para moradia.

Especialistas apontam que a proximidade entre habitação, trabalho, serviços e mobilidade tem se tornado um diferencial competitivo para cidades que buscam atrair talentos e impulsionar ecossistemas de inovação. Nesse contexto, a reocupação de áreas centrais surge como alternativa para reduzir deslocamentos, aproveitar a infraestrutura já existente e estimular novas dinâmicas econômicas.

Um dos exemplos desse movimento é o antigo Moinho Recife, que passa por um processo de reconversão para uso residencial e misto. O projeto representa uma tendência observada em diferentes cidades brasileiras: o retrofit urbano, modelo que adapta edificações existentes para novos usos sem abrir mão da preservação histórica.

Experiências semelhantes vêm sendo adotadas em capitais como São Paulo e Rio de Janeiro, onde programas de requalificação urbana buscam transformar imóveis ociosos em moradias e incentivar a retomada econômica de regiões centrais.

O tema estará em pauta durante a Conferência Regional CAU/PE 2026 – Arquiteturas Tropicais: Legado Moderno e Futuros Possíveis, realizada entre os dias 1º e 4 de julho. A programação reúne especialistas para discutir patrimônio, habitação, mobilidade, sustentabilidade e os desafios das cidades diante das transformações econômicas e tecnológicas.

Para Roberto Salomão, presidente do Conselho de Arquitetura e Urbanismo de Pernambuco, a revitalização dos centros urbanos depende da capacidade de integrar diferentes dimensões do desenvolvimento. “As cidades precisam voltar a ser lugares de permanência. Não basta restaurar fachadas ou recuperar edifícios históricos se as pessoas não conseguem viver, trabalhar e construir vínculos nesses espaços. A revitalização dos centros urbanos depende da integração entre patrimônio, habitação, mobilidade e desenvolvimento econômico. Recuperar a vida urbana é tão importante quanto recuperar os edifícios”, afirma.

A experiência do Recife ilustra um debate cada vez mais presente em cidades que investem em inovação: como criar ambientes urbanos capazes de sustentar o crescimento econômico sem ampliar a dispersão territorial. Nesse cenário, a combinação entre reocupação urbana, infraestrutura, mobilidade e economia digital pode ser decisiva para consolidar o centro da capital pernambucana como um espaço de moradia, trabalho e geração de conhecimento. Leia a revista

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