Projeto em Alagoas transforma plástico retirado do mar em moradia circular
A poluição por plásticos figura entre os maiores desafios ambientais da atualidade. Segundo a Organização das Nações Unidas (ONU), trata-se da segunda maior ameaça ambiental ao planeta. No Brasil, o impacto é especialmente grave: cerca de 1,3 milhão de toneladas de resíduos plásticos são lançadas ao mar todos os anos, de acordo com o relatório Fragmentos da Destruição: impactos do plástico à biodiversidade marinha brasileira, publicado pela ONG Oceana.É nesse contexto que a Fuplastic inaugurou, em São Miguel dos Milagres, o projeto Casa Milagres 9.0, iniciativa que propõe uma aplicação prática da reciclagem em escala na construção civil. A residência foi construída com nove toneladas de plástico reciclado, coletado em praias do litoral brasileiro, evitando que esse material retornasse ao oceano.
A empresa afirma que o reaproveitamento dos resíduos resultou na redução de mais de 18 toneladas de emissões de CO2, volume equivalente à absorção anual de cerca de 114 árvores. Parte do plástico utilizado teve origem em ações de preservação costeira realizadas por organizações parceiras, reforçando a lógica de economia circular que orienta o projeto.
Com 450 metros quadrados de área construída, a Casa Milagres 9.0 possui seis suítes e foi erguida em apenas 30 dias úteis, a partir de um sistema industrializado e pré-montado. A estrutura utiliza cerca de 18 mil blocos modulares sustentáveis, desenvolvidos a partir da reciclagem do polipropileno, um polímero amplamente usado na indústria.
Além da rapidez construtiva, o projeto buscou reduzir o uso de materiais de alto impacto ambiental. Um dos destaques é a piscina em formato de lago naturalizado, que substitui o concreto convencional e evitou a aplicação de mais de 60 metros cúbicos desse material, cuja produção está entre as maiores fontes industriais de emissão de carbono.

Imagem: Barbara Prado
Protótipo de moradia circular
Mais do que uma residência, a Casa Milagres 9.0 funciona como protótipo de moradia circular. O imóvel está disponível para hospedagem e permite que visitantes vivenciem, na prática, um modelo de construção baseado em reaproveitamento de resíduos, eficiência energética e menor impacto ambiental.A proposta da Fuplastic é demonstrar que soluções sustentáveis podem ser aplicadas também em projetos residenciais de maior porte, com potencial de replicação em diferentes regiões do país, respeitando características climáticas e culturais locais.
“O que antes era resíduo descartado hoje se transforma em um espaço habitável, integrado à paisagem e com menor impacto ambiental”, afirma CEO da Fuplastic. Segundo ele, o projeto busca estimular uma reflexão sobre os materiais utilizados na construção civil e suas consequências ambientais de longo prazo.
Blocos reciclados e desempenho construtivo
Os blocos modulares utilizados na obra são produzidos a partir da reciclagem de resíduos plásticos, que passam por processos de separação, limpeza e moldagem. O material resultante é leve, resistente e permite montagem rápida, além de apresentar desempenho termoacústico e facilidade de transporte.Esse tipo de solução tem sido apontado como alternativa para reduzir o desperdício de materiais, acelerar obras e diminuir a pegada ambiental da construção civil, setor historicamente associado a elevados níveis de emissão e geração de resíduos.

Imagem: Barbara Prado
Ao transformar resíduos retirados do litoral em estrutura habitável, a Casa Milagres 9.0 insere a discussão sobre poluição marinha, economia circular e inovação construtiva em um mesmo projeto, apontando caminhos possíveis para enfrentar desafios ambientais que já impactam diretamente o país. Leia a revista