IA desplugada se amplia no Nordeste e expande acesso à educação pública

O uso da Inteligência Artificial (IA) na educação vem mostrando o potencial de transformar o ensino e a aprendizagem. Pesquisadores do Instituto de Inteligência Artificial na Educação (IA.Edu), vinculado ao Núcleo de Excelência em Tecnologias Sociais da Universidade Federal de Alagoas, criaram o conceito inédito de Inteligência Artificial Desplugada na Educação (IAED-U), voltado a escolas com infraestrutura digital limitada.

A proposta surge como resposta a um desafio estrutural enfrentado especialmente em regiões fora dos grandes centros urbanos. Embora 96% das escolas brasileiras tenham algum tipo de acesso à internet, segundo a pesquisa TIC Educação, a qualidade e a estabilidade dessa conexão seguem desiguais - realidade comum em muitas redes públicas do Nordeste.

Testada em projetos-piloto, a IA desplugada já apresentou resultados concretos, como a melhoria nas habilidades de escrita de estudantes da educação básica, sem aumentar a carga de trabalho dos professores e considerando as desigualdades sociais do país.


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Escola pública em Cametá, no Pará, um dos locais onde foi testada a solução de IA desplugada


Os pesquisadores também lançaram a Nota Técnica “IA Desplugada na Educação”, em parceria com a Fundação Tellescom. O documento apresenta caminhos para implementar soluções de IA em contextos com pouca conectividade, adaptando tecnologias de ponta para funcionar em equipamentos simples. O conceito desenvolvido pelo grupo já recebeu reconhecimento internacional da UNESCO, que instituiu uma cátedra dedicada ao tema.

Diferentemente das soluções tradicionais, a IAED-U não exige internet contínua nem computadores sofisticados. “Do ponto de vista técnico, usamos os mesmos modelos de ponta das soluções convencionais de IA, como LLMs (large language models) e IA preditiva. O que muda é o design da solução e a forma como os resultados são apresentados”, explica Rafael Mello, diretor de tecnologia do IA.Edu.


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Rafael Mello, diretor de tecnologia do IA.Edu.


Um dos exemplos práticos é o “Tutor Desplugado”, sistema que funciona em dispositivos de baixo custo, como o Raspberry Pi. Nele, o professor propõe atividades alinhadas ao currículo local, os alunos resolvem os exercícios no caderno e inserem as respostas no sistema, recebendo feedback imediato. O docente, por sua vez, acessa relatórios detalhados sobre o desempenho da turma, podendo intervir sempre que necessário. Quando há conexão disponível, os dados são sincronizados para análises adicionais e geração de evidências para políticas públicas.

Essa lógica também é aplicada no Escreva+, aplicativo móvel que utiliza a IAED-U para apoiar professores do ensino médio na correção de redações manuscritas. A ferramenta transcreve automaticamente os textos e gera avaliações com base nos critérios oficiais do Enem, oferecendo notas por competência e feedback detalhado em poucos minutos.

A tecnologia tem origem em um sistema desenvolvido em parceria com o MEC entre 2021 e 2022, que analisou mais de 1,5 milhão de redações produzidas por 500 mil estudantes de 7 mil escolas em todo o país. No Escreva+, essa base foi aprimorada, reduzindo o tempo de correção para cerca de dois minutos e consolidando o maior banco de dados de redações manuscritas em português brasileiro com transcrições feitas por IA.

Além da agilidade, a ferramenta apresenta alta aceitação entre professores, com avaliação de usabilidade considerada excelente. “Em resumo, o Escreva+ demonstra como é possível democratizar o uso de tecnologias de ponta, levando feedback ágil e qualificado para escolas que enfrentam infraestrutura limitada, mesmo em escolas sem laboratório de informática ou internet estável.”, destaca Mello.

Para Alessandra Debone, diretora-presidente do IA.Edu, a inteligência artificial é uma transformação irreversível e precisa estar acessível a todos. “Precisamos criar aplicações de IA desplugada para permitir que todos os alunos possam não só aprender sobre a tecnologia, mas também desenvolverem competências para utilizá-la e, assim, estarem conectados com o seu tempo”, afirma.


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Alessandra Debone, diretora-presidente do IA.Edu.


Na mesma linha, a cofundadora do IA.Edu, Maria Alice Carraturi, ressalta que a IA desplugada garante acesso imediato a estudantes de regiões com baixa conectividade. “Sem esse recurso, muitos ficariam isolados da transformação tecnológica. Portanto, a solução pode vir a ser uma porta de entrada para o uso dessa nova tecnologia que provavelmente veio para ficar.”


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Maria Alice Carraturi, cofundadora do IA.Edu.


Debone também destaca o potencial da solução para personalizar o ensino e reduzir desigualdades. “Se a IA for disponibilizada apenas em contextos privilegiados, onde há infraestrutura tecnológica e conectividade, o risco é que estudantes desses ambientes acelerem seu aprendizado de forma muito mais rápida do que outros, ampliando o abismo educacional. Já com a IA desplugada, conseguimos reduzir esses gaps e garantir experiências mais equitativas de aprendizado”, completa.

Mello concorda. “Já vivemos em uma sociedade marcada por um gap social e econômico. Então, se continuarmos oferecendo recursos tecnológicos somente para quem já tem acesso, estamos fazendo com que esse gap se torne ainda maior”, avalia.

Apesar do avanço, desafios permanecem. Dados do Censo Escolar 2023 mostram que, na rede municipal, apenas 39,6% das escolas possuem computadores de mesa e 34,8% contam com portáteis para uso dos estudantes. Soma-se a isso a lacuna na formação docente: apenas 43% dos professores se sentem preparados para usar recursos digitais em sala de aula.

Para os pesquisadores, os próximos passos envolvem ampliar investimentos públicos, desenvolver soluções abertas de IA desplugada e fortalecer a formação de professores. O objetivo é transformar iniciativas como essa em políticas estruturantes, posicionando o Nordeste não apenas como beneficiário, mas como protagonista na inovação educacional brasileira. Leia a revista

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