Deepfakes enfraquecem a prova audiovisual e ampliam desafios para empresas e Justiça
O rápido avanço dos deepfakes de voz e vídeo está abalando um dos fundamentos da sociedade digital: a confiança na imagem e no áudio como evidência. Tecnologias capazes de reproduzir rostos, vozes e expressões com alto grau de realismo têm reduzido a credibilidade de registros audiovisuais, ampliando riscos para empresas, cidadãos e sistemas jurídicos.Para Abner Crivellari, fundador da DIOTI, o impacto já ultrapassou o campo técnico e afeta diretamente os processos de validação da informação. “A prova visual deixou de ser um elemento de confiança automática. Hoje, qualquer organização precisa assumir que imagem e voz podem ser manipuladas e que a verificação precisa ir além do que é visto ou ouvido”, afirma.

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Abner Crivellari, fundador da DIOTI
A sofisticação dos deepfakes reduziu significativamente o custo e o tempo de produção dessas falsificações. Estudos da Universidade de Stanford indicam que modelos recentes conseguem clonar vozes humanas a partir de poucos segundos de áudio, enquanto ferramentas de vídeo já reproduzem expressões faciais, movimentos e sincronização labial em tempo quase real.
Esse cenário enfraquece protocolos tradicionais de autenticação, historicamente baseados em chamadas de vídeo, gravações e áudios enviados por aplicativos de mensagens, e obriga organizações a revisarem seus processos de validação.
A pressão sobre empresas tende a aumentar. Segundo a Gartner, até 2026 pelo menos 30% das organizações no mundo devem enfrentar incidentes relevantes relacionados ao uso de deepfakes, seja em fraudes financeiras, seja em crises reputacionais provocadas por conteúdos falsos atribuídos a executivos e porta-vozes.
Impactos no ambiente corporativo
No ambiente corporativo, os riscos vão além de golpes isolados. Levantamento da PwC aponta que deepfakes já são utilizados para disseminar desinformação estratégica, interferir em negociações, manipular ações e pressionar decisões internas. Mesmo após desmentidos, esses conteúdos costumam gerar impactos prolongados sobre a confiança de investidores, parceiros e consumidores.Crivellari avalia que muitas empresas ainda tratam o problema como algo pontual. “O foco sempre foi proteger dados e sistemas, mas a comunicação executiva virou um novo vetor de ataque. O deepfake explora exatamente essa fragilidade”, afirma. Para ele, o principal desafio é integrar segurança da informação, governança e capacitação de pessoas em uma estratégia única.
Justiça diante da crise de autenticidade
O sistema jurídico também sente os efeitos dessa transformação. Relatório do World Economic Forum aponta que a admissibilidade de provas audiovisuais tende a se tornar mais rigorosa, com maior dependência de perícias técnicas, análise de metadados e cadeias de custódia digitais. Em diferentes países, tribunais já discutem padrões mínimos para validar vídeos e áudios apresentados como evidência.Na avaliação de Crivellari, o debate é inevitável. “Não se trata apenas de identificar se um vídeo é falso, mas de reconstruir a confiança em todo o processo que envolve produção, armazenamento e apresentação da prova”, diz. Segundo ele, tecnologias como assinaturas digitais, certificações criptográficas e blockchain devem ganhar espaço como complementos à perícia tradicional.
Caminhos para reconstruir a confiança
Diante desse cenário, especialistas defendem abordagens preventivas. Análise da MIT Technology Review indica que organizações que combinam autenticação em múltiplas camadas, protocolos de verificação de identidade e treinamento contínuo de equipes conseguem reduzir significativamente os impactos de ataques baseados em deepfakes.Ao mesmo tempo, cresce o investimento em ferramentas de detecção, embora pesquisadores reconheçam que a disputa entre criação e identificação de falsificações segue em ritmo desigual.
Para Crivellari, reconhecer a mudança de paradigma é essencial. “A lógica do ‘ver para crer’ ficou para trás. A credibilidade da prova visual agora depende de contexto, tecnologia e processos bem definidos. Quem entende isso mais cedo reduz riscos jurídicos, financeiros e reputacionais”, conclui. Leia a revista